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O CONDE DE LIMA

2giga · 5 de janeiro de 2011

O CONDE DE LIMA
Um sapateiro de Sendim na corte parisiense
ENTREVISTA E FOTOGRAFIA POR NUNO MIRANDA

Há dois anos que o procurava. Ouvi a sua história pela primeira vez através de um amigo, que se mudou para o interior norte, e sempre me pareceu um relato evasivo, quase a roçar a lenda, fantasiado demais para ser verdade. Aos 18 anos, o homem a quem chamam de Maçana atravessou Espanha a pé, tendo por meta a fronteira francesa, esquivando-se assim de estourar o seu corpo em Angola.

Foi abraçado pelo mundo boémio de artistas e mafiosos parisienses e testemunhou alturas marcantes da história dos anos 60 e 70. Voltou para se dedicar à vida de sapateiro e a um tipo de agricultura que lhe valeu uma ida a tribunal.

Fui até uma aldeia perdida em Trás-os-Montes ouvir as suas memórias.

Vice: Demorei algum tempo para te encontrar. És um homem ocupado.
Maçana:
Não sou ocupado. Quer dizer, aos sábados costumo ir a Salamanca, mas também são só três ou quatro horas. E ontem, depois de vir de Espanha, um amigo meu que tem uma garagem lá me disse para ir com ele buscar umas peças.

Porque é que te chamam Maçana? Significa maçã em mirandês.
É. Já o meu avô era Maçana, o meu pai depois dele e eu fiquei também.

É nome de família?
Não, é alcunha. Não sei bem de onde é que vem.

O meu avô também tinha uma, mas felizmente não a herdei.
O meu avô tinha uma cabecita que parecia uma maçã. Acho que foi por isso que lhe puseram o nome de Maçana.

Que idade tens?
66 anos.

Estás com um óptimo aspecto.
E é porque me deu uma trombose aqui há uns oito anos, senão estava aí como um gajo de 20. Mas um gajo de 20 anos não tinha a preparação que eu tinha, acredita. Eu com 50 fazia parte da equipa de futebol de Sendim. E jogava bastante bem!

Moras sozinho?
Sim. Mais vale só do que mal acompanhado. Tenho o meu cão, o Coimbra, que não me larga.

Nasceste em Trás-os-Montes?
Sim, nasci aqui em Sendim. Aos 18 anos fui embora. Fugi para não ter de ir para Angola. Foi na altura que a guerra rebentou, nos anos 60. Agarrei e fui a assalto, andei 18 dias por esses montes a pé, até atravessar a fronteira francesa. Eu e muitos outros.

Fogo.
Só me apercebi que tínhamos chegado a França porque falavam francês e eu já não entendia nada do que eles diziam. Fomos para uma quinta grande, tinha vacas e tudo. Levaram-nos para uma pocilga enorme.

E depois o que fizeram?
Éramos 120 pessoas. Chegámos lá e deitámo-nos com os porcos. Mais tarde apareceu um camião com passadores e aí é que me apercebi de que era tudo organizado. Já lá estavam à nossa espera, e esse camião, em vez de carregar porcos, carregava portugueses para Paris. Quando lá chegámos, tínhamos táxis à nossa espera. Eu levava a morada de um cunhado que lá tinha. Dei a direcção ao taxista, paguei-lhe para ver se ele me deixava no sítio certo. E pronto… depois dali comecei a trabalhar.

A trabalhar em quê?
Como calceteiro.

Pelas minhas contas viveste o Maio de 68. Aquela altura deve ter sido incrível, os estudantes todos nas ruas, as manifestações, os confrontos com a polícia…
O buraco que tenho nesta orelha foi na Sorbonne que mo fizeram, na faculdade. Naquela altura, Paris era ocupada por estudantes e eu tinha muitos amigos na universidade. Andava com eles mas nem sabia o que se passava… eu queria era confusão.

Mas eras um activista? Participaste mas batalhas contra a polícia no Quartier Latin, quando os estudantes atiravam cocktails molotov e queimavam carros?
O Maio de 68 era toda a gente para a rua. Era estudantes, trabalhadores, tudo. Aquilo paralisou tudo. Os carros já nem andavam pelas estradas, só a polícia de choque, mais nada. Eu lá sabia o que era a manifestação. Naquela altura não sabia o que era política nem nada. Agora já percebo um bocadito, mas nessa época queria era ir para o barulho. Mais nada.

Foi aí que começaste a curtir a noite, vida boémia, artistas, músicos…
Durante 15 anos não me lembro de ter dormido uma única noite. Dormia de dia. À tarde levantava-me e ia ao cinema e tal.

Deixaste de ser calceteiro. O que é que aconteceu?
Ó pá, deixei. Comecei a conhecer gente, raparigas e aventurei-me. Comecei a frequentar as discotecas e conheci gente da noite, até que entrei lá no sistema dos artistas franceses. Acho que era por causa da minha cara. Não sei bem porquê, mas engraçavam comigo. Chamavam-me o Conde. Era o Conde Lima.

Como é que arranjavas dinheiro para manter essa vida?
Ó pá, isso há muitas maneiras de caçar pulgas.

Imagino. Tinhas casa ou dormias em casa doutros?
Não, tinha a minha casa. Conhecia várias pessoas. Conhecia colombianos que tinham drogas e desenrascava-me a fazer-lhes de “correio azul”.

Correio azul? Assumo que isso seja algo ilícito. E as mulheres de Paris?
Ah, as mulheres… se me levarem, levam-me, se não me levarem…

Mas foste levado?
Claro. Namorei onze anos com uma argelina de origem judaica, a Nadia, e tivemos um filho.

 
E o teu filho, onde está?
Olha, está melhor do que eu. É engenheiro electrónico não sei de quê e vive em França. Já me veio visitar algumas vezes aqui a Sendim.

Contaram-me que frequentavas a mesma discoteca que o Jim Morrison.
Todas as noites o via. O gajo estava sempre, sempre borracho. Nunca falei com ele, via-o lá com as suas barbas e toda a gente me dizia que ele era um mau carácter. Bebia mais que uma garrafa de uísque por noite.

Qual era a discoteca?
Era a Rock’n’roll Circus.

Há muitas histórias à volta da morte dele, algumas dizem que ele morreu em casa, na banheira. Ele morreu mesmo na discoteca?
Opá, deu-lhe qualquer coisa lá dentro e os gajos da discoteca para não terem chatices, foram pô-lo a casa. Entendes? E foi lá que ele acabou por morrer.

Mas viste-o mesmo na noite em que morreu?
Sim, vi-o passar pela porta, com quatro gajos a levarem-no. Disseram-me, “olha, vai ali o Inglês”. Chamavam-no o Inglês, não sei porquê, nunca falei com ele.

Falando agora de vida em vez de morte. Uma vez salvaste a vida ao Johnny Hallyday, não foi?
Pois. A mulher dele teve um caso e ele tentou suicidar-se.

Quem era a mulher dele?
Era a Sylvie Vartan.

O que é que aconteceu ao certo?
Isso foi em 68 ou 69. Quem fazia as letras das canções do Johnny era o Carlos—um homem forte, cantor também. O Johnny ao pé dele não era nada. Aposto que foi com o Carlos que ela o traiu. Pelo menos era o que se dizia. E o Johnny cortou os pulsos por causa disso, se não tivesse sido eu a chegar a casa dele e chamar os bombeiros, ele tinha morrido. Morava a meia hora de minha casa e eu ia lá muitas vezes.

Como era o Johnny Hallyday?
Era um gajo porreiro. O pai dele é que vivia como um vagabundo. O Johnny até lhe dava dinheiro, mas ele gostava de ser assim.

Atraías artistas, mas também eras atraído por eles. Como o Georges Brassin, que te dedicou uma música porque lhe roubaste a casa.
Eu só fiquei a saber disso depois. Ele nunca soube que fui eu que lhe assaltei a casa. Naquela altura, em Paris, as casas tinham portas de duas folhas. Eu abria aquelas folhas sem chaves sem nada. Tocava à campainha e esperava. Se viessem à porta, perguntava pelo nome de uma criada portuguesa. Se não viesse ninguém, rebuscava a casa. Quando saía, fechava a porta e ninguém dava conta. Depois do roubo em que levei um quadro, o Georges Brassin dedicou uma canção ao ladrão que o roubou e perdoou-o na canção. Ele diz mesmo na canção que me perdoa.

Mas como é que sabes que era a casa dele? Roubaste-lhe os instrumentos?
Vi as coisas dele, mas não tinha lá instrumentos. Só lhe roubei um quadro e jóias, mais nada. Já nem me lembro que quadro era… isto foi nos anos 70.

Porque é que ele te perdoou?
Perdoou quem lhe roubou a casa e não lhe estragou nada.

Quando regressaste a Sendim eras um homem urbano, de origem rural mas com uma vida cosmopolita. Como foi a readaptação?
Bem, a adaptação para mim foi fácil porque eu era daqui. Mas quando cá cheguei ninguém me reconheceu, nem o meu pai nem a minha mãe. Estive alojado na Gabriela, uma hospedaria de uns amigos meus, durante quinze dias. Andava pelos cafés e ouvia a conversa de uns e outros. Ninguém deu conta de quem eu era. E depois fui obrigado a dizer: “olha, eu sou o…”

Porque é que voltaste?
Estava farto. Comecei a injectar-me e depois percebi que aquilo já não era vida. Um dia tinha um bocado de dinheiro e pensei, “ah, foge, vai-te embora.” E foi o que fiz, não disse nada a ninguém. Nunca mais.

Dedicaste-te a quê?
Aos sapatos. Já tinha trabalhado como sapateiro antes de ir para Paris. Como já não ia à escola, o meu pai o que queria era manter-me ocupado—e Sendim era uma terra de sapateiros, tinha mais de cem. Eu faço umas botas ou sapatos tão bem feitos que nem se nota que foram feitos à mão. Foi assim que aprendi. E depois de vir de França comecei a experimentar outra vez. Fiz umas botas para mim e depois comecei a receber pedidos.

Ainda aceitas pedidos?
Recentemente não, já há uns anos que não faço regularmente, só mesmo a quem eu vejo que merece. Antes de me dar a trombose levava 40 contos por umas botas. Não era brincadeira. Uns sapatos custavam 30 contos, e isto há dez anos ou mais. Era manual, tudo manual.

Tiveste uma sapataria?
Tinha uma sapataria, chamava-se “Maçana”.

E o que é que fazes hoje em dia?
Trabalho na horta e no jardim do lar de Sendim. Trato de tudo. É o meu passatempo. Para mim é uma terapia, acredita.

Soube que plantavas cannabis no teu quintal.
Sim, tinha aí umas cem plantas. A polícia não me dizia nada porque sabia que era para eu fumar, mas um dia apareceu um guarda novo por aqui, e quando viu a plantação não esteve com meias medidas, chamou a Guarda de Bragança a minha casa. Levaram-me noventa e tal plantas e quatro quilos de cabeços que tinha em casa. Disseram-me que ia apanhar uma cana do caraças. Quando fui a tribunal, disse à juíza que só usava aquilo para consumo próprio, que já plantava há 15 anos e nunca tinha vendido a ninguém e ela mandou-me embora. Uns vizinhos meus até foram ao tribunal defender-me. Veio aí a televisão entrevistá-los e tudo. Tive de fazer dois meses de trabalho comunitário. Fiz umas calçadas, umas coisas em pedra e trabalhei no lar de terceira idade. Ainda hoje vou lá comer, desde que me deu o AVC, para não andar a comer por aí, percebes?

Isso não é muita erva para uma pessoa fumar sozinha?
É pois. Tanto que até mas roubavam. Uma vez, as mulheres da aldeia andavam à procura de ornamentação para o andor e não sabiam o que aquilo era, por isso levaram-me algumas plantas. As plantas no mês de Agosto ficam de um verde incrível. Eu sabia que as andavam a arrancar porque via aquilo cortado, mas não sabia quem era. Até que, num dia de procissão, fui até à praça e vejo lá aquela merda toda escarrapachada!

Ninguém sabia o que aquilo era?
Não, elas pelo menos não [risos].

Pareces um homem feliz.
A mim não me falta nada. Tenho uma reforma mais ou menos e tenho amigos, é o que importa.

Olha lá, esses óculos são brutais. São Ray-Ban originais?
Claro! São de carapaça de tartaruga, foi o Johnny que me deu. 

FONTE:  O CONDE DE LIMA - Um sapateiro de Sendim na corte parisiense - Vice Magazine

Ação concluída.
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