SENDIM EM LINHA SENDIN
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EM BUSCA DO MENINO TRANSMONTANO

2giga · 10 de agosto de 2005

Em 1978 Portugal ainda mantinha um mundo rural pobre, triste e abandonado. Eu era um jovem pai que queria ser arquitecto, fotojornalista e que tinha de trabalhar para sobreviver.

A Helena Vaz da Silva, saudosa amiga, desafiou-me a acompanhar algumas das deslumbrantes viagens do Centro Nacional de Cultura pelo país.

Uma dessa viagens foi a Trás-os-Montes. Dormi e comi num convento, vi os rituais do ainda desconhecido Padre Fontes. As histórias seculares do padre Mourinho de Duas Igrejas fascinaram-me. Pela primeira vez comi posta mirandesa. As águas límpidas do Douro convidavam a banhos e piqueniques nas margens. (…)

(…) Eu fotografava tudo com a minha Leica M4 de 35mm, uma M3 com uma 50 e 90 mm ,e uma Olympus OM- 2 com uma 35mm para fazer cor. Ao meu lado António Sena da Silva, meu colega em Belas-Artes; dava os primeiros olhares na fotografia usando uma Leica dos anos quarenta. Eu procurava retratar o Portugal rural que tanto me marcou na minha infância, desde a minha Sarzeda natal das terras do Demo.

Em Sendim acabei por fotografar um miúdo muito triste, que me olhava como que a implorar ajuda. Lembro-me que havia uma luz dura de fim da manhã, que o local era afastado do centro da aldeia e que disparei duas ou três fotografias, sendo a escolhida aquela em que a criança colocava a mão no peito, com uma carroça a dramatizar o ambiente. Na altura eu andava obcecado com a obra do Cartier-Bresson e esta fotografia era uma homenagem à fotografia da mãe com a criança ao colo feita na India.

O meu querido mestre e amigo Gerard Castello Lopes viajou há semanas por aquelas paragens de Sendim no planalto transmontano. Alguém lhe falou na foto do menino publicada no meu livro PORTUGUESES. E de súbito apareceu-Ihe o menino já adulto, mais triste e mais só. Gerard levou a sua Leica ao olho e retratou-o a cor, fazendo um documento comovente. O menino chama-se Geraldes, e até o nome comporta qualquer coisa de misterioso, já que é parecido ao nome do mestre.

Estas duas fotos que ligam quase uma vida comportam em si uma das grandes virtudes do acto fotográfico: o testemunho e a nostalgia.

Em Sendim
acabei por
fotografar um
miúdo muito
triste que me
olhava como
que a implorar
ajuda.

Luís Carvalho (Fotodigital)

Ação concluída.
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