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007 · 007 - La "çcubierta" de la lhéngua mirandesa por José Leite de Vasconcellos

27/10/2007

amadeu · 27/10/2007

007 - La “çcubierta” de la lhéngua por José Leite de Vasconcellos

1. L anho de 1882 ye un marco na stória de la lhéngua mirandesa, de tal modo que tenemos de debedir l coincimiento de la lhéngua an dues grandes eras: la era antes de 1882 e la era apuis de José Leite de Vasconcellos [naciu an Ucanha an 1858 i morriu-se an Lisboua an 1941]. Defrente desso son las eras que hemos de çtinguir na eiboluçon de la lhéngua, mas desso trataremos nua licion a seguir a esta.

Por hoije bamos solo a amostrar cumo fui que José Leite de Vasconcellos “çcubriu” la lhéngua mirandesa, yá que até ende eilha nun eisistie pa las ciéncias lhenguísticas. Portanto, quando digo que José Leite de Vasconcellos “çcubriu” la lhéngua, ye ne l sentido de la dar a coincer a Pertual i al mundo pus que até ende nun se cunsidraba que fusse ua lhéngua, mas un falar de giente atrasada. I l einorme mérito daquel sábio, a quien l mirandés tanto debe, ampeçou por ser l dezir que dua lhéngua se tratata. Al dezir esso, todo demuda ne l modo de antender l mirandés i de un star delantre del

Nessa altura, yá muitá que se chegara a ua situaçon an que, apuis de seclos de squecimiento, se habie perdido la lhigaçon stórica de la lhéngua mirandesa a la lhéngua lhionesa. L que José Leite de Vasconcellos bieno a fazer fui, antes de mais, tornar a atar l filo de la stória que se habie zlaçado.

2. Para saber cumo se dou essa çcubierta, l melhor ye poner eiqui las própias palabras de José Leite de Vasconcellos, que son bien antressantes, i fúrun publicadas, pula 1ª beç l die 13 de Janeiro de 1897 ne l jornal diário lisboeta REPORTER [ano VI, nº 1:517], na queluna ECHOS que era deregida por Trindade Coelho, que l’assinaba cul pseudónimo de CH. A. HYSSON.

Scribe assi l eilustre scritor de Mogadouro, ne l jornal REPORTER de 13 de Janeiro de 1897:

O mirandez.

O prometido é devido; e o sr. Leite de Vasconcellos, como generoso que é, e até prodigo, em dizer o muito que sabe, não se fez esperar. Não tenho palavras para agradecer ao illustre philologo o artigo interessantissimo que vae lêr-se, que é, ao mesmo tempo, uma pagina de bohemia academica, servindo de prefacio a um trabalho de sciencia. É interessante vêr como nasceu a sua curiosidade pelo mirandez, - curiosidade que definindo-se e fixando-se depois atravez de arduas canceiras, constituiu para nós um grande proveito, e para o sr. Leite de Vasconcellos, cá dentro e lá fóra, um titulo de honra. Eis o primoroso artigo, ao qual, sou feliz em o dizer, outros se seguirão.

3. I sigue-se lhougo l artigo de José Leite de Vasconcellos, an letra mui menudica, i que a seguir reproduzo tal i qual cumo fui publicado, mesmo sien atualizar la scrita:

«A Língua Mirandesa

(1º artigo)

Frequentava eu, em 1882, o 1º anno de Medicina na Eschola do Porto, quando dois meus contemporaneos e amigos, hoje medicos, Affonso Cordeiro e José Joaquim Pinto, sabedores de quanto eu apreciava as tradições e a linguagem do povo, me disseram que andava matriculado na Academia Polytechnica um rapaz de Miranda do Doiro, que sabia com perfeição a lingua d’essa terra, pois a fallava desde criança.

Ora eu já então tinha conhecimento de que em Miranda se usava uma lingua que não era o português, mas não havia ainda podido recolher senão duas ou tres palavras, uma das quaes era cheno (cheio), ouvida a um meu conhecido em Guimarães, por occasião de umas ferias; por isso pulei de contente ao receber a noticia que Affonso Cordeiro e José Joaquim Pinto me deram, e não foi esta a unica vez que a estes meus dedicados e intelligentes companheiros devia informações sobre assumptos de ethnographia portuguesa.

Não decorreram muitos dias que eu não estivesse em intimas relações de amizade com o feliz estudante que fallava a lingua de Miranda, o meu querido Manoel Antonio Branco de Castro, meu Espírito Santo mirandês, por cujo intermédio pude addicionar á carta linguistica da Europa neo-latina mais um elemento.

Combinámos reunirmo-nos um dia feriado, para eu começar o meu trabalho de investigação. Foi este dia um Domingo, á tarde. Branco de Castro morava numa republica para os lados de Cedofeita, e lá tivemos a primeira reunião. Nunca me esquecerá tal Domingo! Cada indivíduo tem as suas datas célebres: um, porque lhe nasceu um filho; outro, porque recebeu uma herança. Para mim o dia em que pela primeira vez na minha vida ouvi fallar seguidamente mirandês, e em que esbocei as primeiras linhas da sua grammatica, constitue tambem uma viva memoria. Consintam os leitores esta pequena expansão a quem, desde 1886, quasi não pensa noutra cousa que não seja a historia da boa terra lusitana, particularmente no seu lado ethnologico e linguistico, e não aspira senão ao gôzo de contribuir para o vasto thesouro da sciencia com um facto ou uma ideia nova, embora de modestas proporções.

Branco de Castro, reclinado sobre a cama, no seu pequeno quarto de estudante, recitava vocabulos, conjugava verbos, declinava nomes; eu, sentado numa cadeira ao pé, ia apontando fervoroso tudo o que lhe ouvia, e que para mim era como aquellas maçãs de oiro que, segundo um conto popular, sahiam da bôca de uma virgem bem-fadada quando fallava ao seu noivo.

Num quarto vizinho estavam alguns estudantes tocando guitarra, e entre elles o meu prezado amigo Joaquim Maria de Figueiredo, conceituado pharmaceutico nesta cidade, o qual ainda hoje falla nisto: os estudantes interromperam a musica, e vieram ouvir. Ao contrario de Orpheu, que, ao som da sua lyra, arrastava os penhascos e fazia parar os rios, aqui a musica cedia ao encanto da lingua de Miranda! Isto constituia de facto uma novidade para os estudantes, que não sabiam que em Portugal se fallava outra lingua alem do português de Bernardes e Garrett. O mais encantado porém era eu. Com certeza não se escutavam com maior attenção os oraculos de Apollo em Delphos, e de Zeus em Dodôna, do que eu as palavras que o meu Branco de Castro proferia, sereno e resignado, deante de mim.

Dizia elle a principio: - Isto é uma giria de pastores, uma fala charra, não tem regras, nem normas!». Mas, quando eu lhe msotrava que as correspondencias d’ella com o latim era certas, que a conjugação seguia com ordem, - elle pasmava, e admirava-se que entre os cabanhaes de Genízio, e em meio dos hurtos(1) de Iffanes se podesse ter feito coisa tão regular como era a lingoa que velhos cabreiros lhe haviam ensinado em pequeno. E tambem se enthusiasmava, e começava comigo a venerar esta desherdada e perdida filha do latim. O seu espanto subia então de ponto, quando, não se lembrando casualmente de um vocabulo, ou não lhe acudindo logo á memoria a flexão de um verbo, eu lh’os indicava theoricamente, apenas baseado nas leis que pouco a pouco ia deduzindo dos factos observados.

Assim, ao cabo de algumas horas, e com mais uma ou outra noticia que colhi posteriormente, obtive materiaes que me bastaram para caracterisar nas suas feições mais geraes o mirandês.

Lisboa, 11 de Janeiro de 1897

J. Leite de Vasconcellos

(1) A vogal tonica d’esta palavra não é propriamente u, mas um som parecido, que, por dificuldade typographica, não posso indicar.»

4. Ye la purmeira beç, que you saba, que se publica este testo de José Leite de Vasconcellos, fuora daquel jornal Reporter. El ye amportante pa la stória de la lhéngua mirandesa i merece ser coincido tal i qual cumo fui publicado la purmeira beç. L outor aporbeitou l testo i tornou a publicá-lo ne ls Estudos de Philologia Mirandesa, I, pp. 3-5, mas fazendo altaraçones de bárias palavras, de puntuaçon i até de algues formas de scrita, sendo antressante notar que nesta última bersion son apagadas las palabras que amóstran mais antusiasmo pula çcubierta de mirandés i yá nun aparece la nota subre la palabra hurtos, pus achou outro modo de screbir. Hai inda ua outra çfréncia amportante quanto al ampeço de l sou antresse pula lhenguística: ne l jornal Reporter pon la era de 1886, mas ne ls Etudos... pon 1876. I cuido que aqueilha será la era cierta.

Queda eiqui l modo cumo Leite de Vasconcellos chegou al mirandês, “...esta desherdada e perdida filha do latim...”, cumo el diç. I ye justo ampeçar porqui la stória de la lhéngua mirandesa, pus sien esse momento momento mágico talbeç nien stubíramos a dar este curso. Inda que tenga feito ua ou outra cousa talbeç çcutible, esso ye secundairo, pus nunca podemos squecer la díbeda sien fin que le debemos a esse sábio, que nun era mirandês mas «venerava» la nuossa lhéngua. Pulas tierras de Miranda hai rues i outras cousas cul nome de muita giente, mas l del, que you saba, nun se bei an lhado nanhun.

27 de Outubre de 2007

Amadeu Ferreira

Ação concluída.
Antrar

Para screbires ne l sítio, diç-mos quien sós. Ye ua beç — depuis quedas antrado.

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