SENDIM EM LINHA SENDIN
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1604–1625

HISTÓRIA DOS PAULITEIROS EM SENDIM

Almendra · screbido a 27/03/2007

Perde-se no tempo a origem da dança dos pauliteiros e podemos mesmo afirmar que, em Sendim, ela existe desde que há memória da sua existência.

A notícia mais antiga, que conhecemos, é-nos dada por Manuel Severim de Faria, que foi Chantre da Sé de Évora, e que ao escrever sobre uma das suas viagens por Portugal, entre 1604 e 1625, referindo-se à nossa região, mais concretamente a Vila de Ala, dava notícia de lá ter assistido a uma dança com paus e ao toque da gaita-de-foles.

Em Sendim, pelos relatos que ouvimos aos mais velhos, desde que se lembravam, e isto referia-se a um tempo que remontava aos fins do século XIX, era uma dança que se dançava no Sagrado e pelas ruas da povoação em dias de festa, nomeadamente na festa de Nossa Senhora do Rosário.

Houve sempre grupos de pauliteiros em Sendim, pelo menos desde os fins do século XIX, pois nós mesmo o ouvimos da boca de dançadores desse tempo e que nos foi confirmado pelo próprio Padre Dr. António Maria Mourinho. Seu pai, João da Cruz Mourinho, que também foi dançador, teria feito parte de um grupo antes do ano 1900, daí ter ensaiado pelo menos oito grupos antes de falecer, o que aconteceu em 1938, destes grupos apenas conseguimos saber que deles fizeram parte José Pires Mourinho, Francisco Geraldes, António Vinhão, Francisco Mendonça, seu irmão António Mendonça, António Cangueiro, Francisco Ferreira e António Maquelino. De notar, o que escreveu o Padre Dr. António Maria Mourinho no seu cancioneiro e que aconselhamos a ler, na parte final deste humilde trabalho:

<< Meu pai, João da Cruz Mourinho, falecido repentinamente de atroz acidente, em 1938, com 58 anos de idade, ensinou nada menos que 8 (oito) grupos de dançadores, em sucessivas gerações, não só em Sendim, como em povoações vizinhas, onde tinha inúmeros conhecimentos e amigos. Acompanhou muitos anos o tio Pepe de Freixiosa e o tio Silvestre Louçano de Vila Chã, os mais famosos gaiteiro e tamborileiro de toda a Terra de Miranda dos fins do século XIX, de que ainda bem me recordo… E meu irmão mais velho José Pires Mourinho, ensinou três grupos>>.

Sabemos por conhecimento pessoal e porque trabalhamos muito de perto, com o Padre Dr. António Maria Mourinho, que ele tinha muita documentação sobre Sendim e que pensava publicar. Infelizmente não só não chegou a publicar, como pelo que sabemos, não se sabe o destino que teve, já que no seu espólio parece não estar.

Pena foi que muito do que recolhemos o tivéssemos dado, se não, este trabalho estaria muito mais completo. Assim valemo-nos da memória.

Que outros não venham procurar honras de trabalhos que não lhes pertencem e para o qual nada contribuíram, como aliás já foi feito nalguns casos.

O grupo mais antigo que identificámos, foi um que era formado por Abílio Aleixo, José Castro, Domingos Pires e Domingos Santiago, como guias e José Joaquim Xavier, Alfredo Pires, Alfredo Cangueiro e Aleixo Margalho, como peões. Actuou nos anos de 1947 a 1950, pelo que nos foi dado saber. Era seu ensaiador José Pires Mourinho, irmão do Padre Dr. António Maria Mourinho. Os gaiteiros eram de Travanca.

Os ensaios faziam-nos cantando os “lhaços”, no Baiunco, nas curraladas e na rua que hoje se chama 1º. De Maio, no pequeno largo, junto ao poço de pedra, que ainda hoje lá se encontra. Numa das pedras do poço estão duas datas, uma de 1803? e outra de 1908.

Era muito frequente, porque havia falta de gaiteiros, os pauliteiros actuarem ao toque da caixa e bombo e a ouvirem cantar os “lhaços”. A gaita-de-foles era mais usada nas festas.

Sem querermos entrar em polémicas, pela nossa experiência como ensaiador e dançador e ainda como ouvinte atento de pessoas que viveram no séc. XIX, queremos dizer que cantar os “lhaços” era uma prática mais frequente que se julga. Havia pauliteiros em todas as localidades, mas gaiteiros não. E os “lhaços” têm quase todos letra e querem transmitir uma mensagem às pessoas ou representam situações e vivências do dia a dia. Muita gente que nem sabe bater um pau, sabe os “lhaços” e a música, de cor.

Pelo depoimento de um destes pauliteiros, José Joaquim Xavier, soubemos que a formação deste grupo começou com uma das muitas reuniões que estes rapazes faziam no Baiunco, debaixo da varanda da antiga casa de Sr. Antoninho Oliveira (fig.1), para prepararem um número para o Carnaval.


Fig.1

A ideia inicial foi fazerem uma paródia sobre a dança dos paus e utilizar tenazes de ferro, Aleixo Margalho era ferreiro e para simular o bater dos paus, usarem socos com sola de madeira. Isto prova bem que em Sendim dançar com os pés era fundamental.

José Pires Mourinho a quem pediram para os ensaiar, aproveitou a ocasião e disse-lhes que já que queriam dançar, então tinha que ser a sério, também. Pois foi mesmo a sério e assim se reiniciou a dança de novo, em Sendim. Pena foi que não tivesse o apoio que outros tiveram.

Ao contar este episódio, não foi sem intenção, mas para mostrarmos que os sendineses quando vêem que as coisas não andam, reagem provocando as situações.

Não lhes parecia justo Duas Igrejas ter um grupo de pauliteiros, dirigido por um sendinês, o Padre Dr. António Maria Mourinho, e Sendim não. Nunca os sendineses aceitaram muito bem o facto de o Padre Dr. António Maria Mourinho, ter levado muitos dos ensinamentos que aprendeu com seu pai e seu irmão mais velho, para o grupo que veio a dirigir em Duas Igrejas. Mas, o que é certo, é que era aí pároco e as danças eram património de toda a Terra de Miranda.

Duas Igrejas tinha também tradição na dança dos paus. Um grupo dessa freguesia, mais concretamente de Cércio, uma povoação anexa, foi dos primeiros a actuar fora da Terra de Miranda.

Abílio Aleixo veio a formar um grupo de pauliteiros na tropa, em 1951, juntamente com Armando Quitério, de Sendim, José Taborda da Granjica, Adelino de Cicouro, José de Angueira, Manuel da Especiosa, Joaquim de Freixiosa e Fernando de Constantim. Um do concelho de Mogadouro, outro do concelho de Vimioso e os restantes do concelho de Miranda do Douro. Para a formação deste grupo muito contou o apoio do alferes Dinis, de Miranda do Douro. Não sabemos para já os apelidos, razão por que indicamos a seguir ao nome, a naturalidade.

É importante referir aqui como se processou a formação deste grupo, na tropa, pois vem-nos mostrar a força da dança dos paus na união dos mirandeses e da importância da sua língua.

Contou-nos o tiu Abílio Aleixo:

<< Aproximava-se o juramento de bandeiras e nós, os do concelho de Miranda do Douro e alguns do concelho de Vimioso e Mogadouro, resolvemos ensaiar um grupo para actuar no dia do juramento de bandeiras. Os que sabiam já, por terem dançado nas suas terras e outros a quem fomos ensinando, juntámo-nos numa arrecadação e sem dar motim, lá fomos ensaiando os “lhaços”, os que não sabiam eram poucos. De Sendim era também um rapaz chamado Armando Quitério, está no Brasil, como não tinha dançado nunca, tinha medo de que lhe acertássemos com os paus, e andava com um pau sempre no ar, mas lá aprendeu.

Como não tínhamos gaiteiro, estávamos com esse problema quando um rapaz do concelho de Vimioso, agora já me vou esquecendo dos nomes, nós conhecíamo-nos pela fala, então esse rapaz disse-nos que resolvia ele o problema. Como tocava clarinete no quartel de artilharia, era na Pesada 2 em Gaia, começou a ensaiar ao mesmo tempo que nós cantávamos e ficou porreiro. Parecia mesmo um gaiteiro.

Mas tivemos também sorte, é que um dia, logo no princípio, um tenente deu connosco e com o seu ar importante perguntou:

- Que estais a fazer aqui e que barulho é este?

-Estamos a ensaiar uma dança da nossa terra, para o dia do juramento de bandeira, meu tenente.

-Dançai lá para eu ver.

Dançamos e ele virou-se para nós e disse:

-Eu sou de Miranda, tendes mesmo que continuar e quero isso bem ensaiado.

-Mas, meu tenente, o comer não é muito aqui no quartel e com o trabalho vai ser complicado.

No outro dia tínhamos mais uma terrina de sopa. Era o tenente Dinis, mais não sei>>.

Seguiu-se outro grupo, ensaiado por José Pires Mourinho, em 1957, formado por Domingos Picotês, José Xavier, José Pires Mourinho, Manuel Cangueiro, Domingos Pires, Alfredo Pires, Aleixo Margalho e Manuel Ferreira. (fig.2)

De notar que este grupo tem elementos do anterior e o ensaiador, José Pires Mourinho aparece como dançador. Ele aparece porque faltou um dançador e como sabia ocupar todas as posições teve que dançar. Os gaiteiros eram de Travanca.

Também a formação deste grupo teve uma razão forte, aproximava-se a inauguração da Casa da Criança Mirandesa e com uma festa em que iam participar todas as terras de Miranda. Todas trariam carros alegóricos e muitos grupos a actuar. Sendim, não podia ficar indiferente. Este grupo veio a ser considerado dos melhores, já que foi o que melhor soube utilizar o repicar dos paus e a dança de pés. O grupo de Duas Igrejas teve um ponto a seu favor, que foi “o salto ao castelo”, mas o grupo de Sendim inovou nos “lhaços” ao dançar o Hino Nacional.

Fig. 2

(no fim deste trabalho podem ler os nomes de todas as dançadoras, bem como dos três miúdos)

Foi no peditório de uma festa em honra de Nossa Senhora do Rosário, em Outubro de 1963, que tiramos a fotografia a um grupo de paliteiros (fig.3), que era constituído por José Santiago, Belmiro Carção, Joaquim Paulo, José Antunes, Américo Peres, José Carlos Alves, Manuel Marcelino, e António Gonçalves. Este grupo era ensaiado por José Pires Mourinho e actuou em vários outros eventos, nomeadamente numa festa em Lagoaça, no Verão de 1964. Os gaiteiros eram de Travanca.

Fig. 3

(Na fotografia, além dos pauliteiros e dos gaiteiros, podem ver com a bandeja do

peditório, José Mourinho, ensaiador e ainda Isabel Cangueiro e Ana Preto)

A guerra do ultramar fez com que este grupo se separasse, mas o Manuel Marcelino, que pertenceu a uma companhia militar em Angola, onde estava também o Paço Bandeira, veio a ensaiar aí um grupo de pauliteiros.

Belmiro Carção ensaiou também um grupo em Angola, quando cumpria o serviço militar.

Entendemos que é importante realçar o facto de os sendineses formarem grupos de pauliteiros por esse mundo fora. Além dos já referidos, também no Canadá os sendineses dançavam, nos anos 70 havia um grupo em Toronto, formado por Eduardo Peres e seu primo Venâncio Peres de Sendim, Eduardo Marcos e Avelino Marcos de Cércio, Norberto Raposo de Pena Branca, Porfírio Igreja de Miranda, Nelson Moita de Fátima (é curioso ver neste grupo um dançador de fora da Terra de Miranda) e José Valentim de Genísio. Tocava a gaita-de-foles Eduardo Marcos de Cércio e a caixa Abílio Peres de Sendim.

Em 1973, foi na Casa do Povo, éramos nós presidente da direcção, quando formamos um grupo de danças mistas e pauliteiros, mas só as danças mistas se exibiram na inauguração da secção de artesanato, em que esteve presente o Ministro das Corporações e Previdência Social. Este grupo não continuou devido às alterações políticas que trouxe o 25 de Abril de 1974 (fig.4).

Fig.4

Em 1980, dado que tinha sido fundado o Centro Cultural e uma das actividades era fazer renascer as danças tradicionais, os professores José Almendra e José Ramos Campos resolveram criar um grupo de pauliteiros infantil e fazer deles um grupo que continuasse a dança, no futuro (fig.5). Assim aconteceu, tendo-se transformado numa escola, que ao longo dos anos foi criando vários grupos de pauliteiros, em Sendim.

Fig. 5

No início foram ensaiados por Benjamim Monteiro, de Vila Chã e por António Alves, de Atenor. Este fez parte de um grupo ensaiado por João da Cruz Mourinho.

Os primeiros ensaios faziam-se cantando os “ lhaços “ e só quando já começavam a saber dançar as variantes, (a quatrada, a corrida, guias adentro e peões afora, guias afora e peões adentro, guias em volta, desvolta por dentro e por fora, a passagem e a “bitcha”) é que se chamou o gaiteiro, o tiu Pascoal de Cércio, que já tinha muita experiência, pois acompanhava o grupo de Duas Igrejas, dirigido pelo nosso conterrâneo, Padre Dr. António Maria Mourinho.

Os pauliteiros usavam calças, como era tradição, em Sendim. (fig.6 e 7)

O facto de o tiu Pascoal ter sido o gaiteiro do grupo teve uma importância maior que se julga. Cércio foi sempre a terra em que os pauliteiros melhor dançavam com os pés, como aliás em Sendim e daí ainda hoje isso ser uma das principais características do nosso grupo.

No euro 2004, onde estiveram muitos figurantes vestidos de pauliteiros, foi muito considerada a forma como os elementos de Sendim e de Cércio dançavam a “bitcha”. Tendo sido a adoptada pelos coreógrafos.

Fig. 6

Fig. 7

Como surgiu a necessidade de uma maior continuidade nos ensaios, pensou-se que um dos pauliteiros de 1963 poderia dar uma ajuda. O único que se disponibilizou foi o Belmiro Carção, que durante os ensaios e com o tiu Pascoal, gaiteiro de Cércio (fig.8), foi recordando os “lhaços”, acabando por vir a ser o continuador, tendo passado a tomar conta do grupo, nos ensaios.

Fig.8

Do grupo inicial faziam parte Virgílio Carção, Óscar Jantarada, Pedro Castro, Luís Fernandes e Vítor Balbino (guias) e Óscar Salgado, António Aleixo, Carlos Afonso e Victor Pêra (peões), Luís Fernandes, Paulo Felgueiras, Ramiro Quitério, Fernando Palhau e Aquilino Branco.

Houve o cuidado de ensaiar mais de oito elementos, para melhor se poder escolher e ter substitutos para todas as posições e assim, suprir uma eventual falta. Alguns destes elementos dançavam também as danças mistas.

Quando alguns destes elementos saíam, por terem de ir estudar para longe, e como eram admitidos todos os anos novos elementos, facilmente se renovava o grupo e logo surgiu outro de que fizeram parte, Óscar Salgado, Aquilino Branco, Paulo Nobre, Raul Martins, Manuel Falcão, António Aleixo, João Aleixo, Ramiro Quitério, Nelson Pimentão e José Pires.

Com as receitas que se conseguiam com as deslocações e outras, nestas é de realçar a ajuda que muitas mães e outras mulheres de Sendim deram, fizeram-se os saiotes e as “inaugas” (saias brancas de dentro) dos fatos. Quase tudo foi feito em Sendim.

Os pauliteiros passaram a usar o traje, como o mais conhecido grupo de pauliteiros, no Mundo, os pauliteiros de Duas Igrejas (fig.9).

Fig.9

(O porta estandarte é Vítor Pardal e tocava o bombo, Eduardo Mendonça)

A partir destes, muitos outros surgiram, mas porque eles foram os primeiros e os continuadores mais tarde, no grupo adulto, era de justiça referi-los todos.

O grupo de pauliteiros infantil actuou em vários locais do concelho, do país e do estrangeiro, de início acompanhado pelo professor José Ramos Campos e uma ou outra vez pelo professor José Almendra. Só mais tarde é que o Belmiro Carção viria a tomar a seu cargo o acompanhamento do grupo, nas deslocações.

Quando o tiu Pascoal não podia, começou a acompanhar o grupo, o gaiteiro António Alves de Vila Chã, que mais tarde viria a ser o gaiteiro usual. Tocavam caixa o David Jantarada e bombo o Eduardo Mendonça, também infantis e que aprenderam a tocar, no grupo.

O grupo infantil começou a ter problemas nas deslocações, pois as solicitações eram muitas, e levar crianças de um lado para o outro era complicado, houve uma pausa. No entanto, na escola, íamos nós próprios mantendo a actividade, formando grupos que actuavam nas festas escolares e no Carnaval (fig.10).

Fig. 10

Para esta pausa, muito contribuiu também a dificuldade de levar todo o rancho do Centro Cultural, já que a ensaiadora das danças mistas, Judite Mourinho, filha de José Pires Mourinho, pela sua vida pessoal, não podia dar a atenção que desejava. Mas muitas crianças aprenderam a dançar e não me engano se disser que, em Sendim, é onde mais gente sabe dançar os paus, na Terra de Miranda.

Pelo que conhecemos foi Sendim a primeira terra de Miranda a ter um grupo infantil. Já em 1957 se tinha tentado e só não se continuou porque não seria possível actuarem todos os grupos de Sendim, na inauguração da Casa da Criança Mirandesa. De notar que nas danças mistas, nessa data, havia dançadores infantis e adultos. Os pauliteiros infantis não concluíram os ensaios, mas continuaram a dançar nos recreios da escola e deles viria a surgir o grupo de 1963.

Ainda hoje estamos a ver o Belmiro Carção, o José Carlos, o Américo Peres, o António Almendra, o Manuel Mourinho e tantos outros, a correrem pelo recreio, com os paus e a dançarem, mas aqui em grupos de quatro.

Em 1997, um grupo de antigos dançadores do grupo infantil foi ter com o Belmiro Carção, para fazerem um grupo adulto de pauliteiros. Este aceitou e o grupo adulto de pauliteiros ainda hoje se mantém em actividade e com o Belmiro Carção actuou em vários locais do país e do estrangeiro, sendo de realçar a actuação em França.

Com o falecimento trágico do Belmiro Carção, viria a tomar conta do grupo adulto de pauliteiros o Jorge Morgado, infelizmente falecido num acidente poucos meses depois, pelo que, hoje o seu director é o Óscar Salgado, que actualmente se dedica de alma e coração ao grupo e que levou também, a vários locais do país e do estrangeiro. De notar que o Óscar Salgado foi um dos primeiros dançadores do grupo infantil.

Também a Associação de Professores Mirandeses criou o seu grupo de pauliteiros de que fizeram parte, no seu início, os professores: José Almendra, José Mourinho, José Ramos Campos, José Preto e António Carção, todos de Sendim, o professor José Teixeira da Granja de S. Pedro e que dava aulas em Sendim, o professor José Delgado de Palaçoulo e o professor José Casimiro Martins de Brunhosinho (fig.11) e (fig.12). Este grupo actuou também em vários locais de Portugal e Espanha, nomeadamente no Coliseu do Porto e no S. Luís em Lisboa.

O gaiteiro era António Alves de Vila Chã, tocava bombo José Pires, que foi professor em Sendim e cá casou e tocava caixa Pedro Ferreira, professor em Mogadouro.

Foi seu ensaiador o professor José Alberto Teixeira, um dos mais entendidos, na dança dos paus, em toda a terra de Miranda. Ele aliava à arte de ensaiar, o conhecimento das várias variantes de quase todos os grupos e ainda, a arte de saber dançar em todas as posições. Era a guia direita do grupo dos professores.


Fig. 11

Fig. 12

Porque julgamos relevante, vamos dar uma explicação das principais variantes que se encadeiam durante a dança de um “lhaço”. Há “lhaços” que têm várias e outros apenas uma ou duas. O início, a passagem e a “bitcha” é que são praticamente comuns a todas.

O grupo é constituído por oito pauliteiros que se dispõem em duas filas paralelas. Os pauliteiros das pontas são as guias e os de dentro são os peões.

Isto é importante saber-se para se poder dançar bem, já que os peões, por regra, nunca podem deixar as suas respectivas guias.

As duas guias de cada ponta e os seus peões fazem a quatrada.

Quatrada – Os quatro pauliteiros que formam a quatrada trocam entre si de posição, batendo os paus, acabando sempre por ocupar a posição inicial. A quatrada pode fazer-se com ou sem paragem a seguir a cada vez que se cruzam os pares, ou em movimentos seguidos.

Corrida – Os guias de uma ponta, levando atrás todos os dançadores da sua fila vão na direcção da outra ponta, em círculos ovais, batendo com os paus e regressando ao seu lugar inicial.

Guias adentro e peões afora – Os peões rodam, um quarto de volta, na direcção do centro das filas, batendo os paus e dando um passo lateral e para fora, vão ocupar o lugar das guias (fora), deixando espaço para estas, que rodando ao mesmo tempo e no mesmo sentido, dão um passo em frente ocupando o lugar dos peões, ao meio (dentro), ficando de frente para as guias da outra extremidade das suas respectivas filas.

Guias afora e peões adentro – Os peões e as guias fazem os movimentos contrários à dança anterior, como facilmente se deduz, indo ocupar os seus devidos lugares, já que os peões estão no lugar das guias e as guias no lugar dos peões. Guias afora e peões adentro.

“Desvolta” por dentro e por fora – As filas estão voltadas uma para a outra, as guias e os peões batem os paus nos que têm em frente (peão com peão, guia com guia), cada guia volta-se para o seu peão que por sua vez se volta para a sua guia e batem com os paus. Os peões continuam a rodar na mesma direcção e vão ficar de frente para o outro peão da sua fila com quem batem os paus. As guias acompanham o movimento dos peões e saltando vão bater nas guias da sua fila, fazendo uma fila perpendicular à primeira. Fazem o movimento inverso e regressam aos seus lugares, batendo sempre os paus.

As guias podem ainda, ao bater guia com guia, cruzarem e irem bater os paus com os peões das outras guias e saltando irem bater com as guias da sua fila, mas já no outro extremo das filas.

Guias em volta – Os peões juntam-se ao meio, costas com costas e em movimento contrário às guias, vão aparando, com os paus o batimento dos paus das guias que rodam em volta deles. Ou fazem passes, esquerda, direita.

A passagem acontece no fim de cada dança, em que os dançadores de uma fila passam pelos da outra, indo formar duas filas perpendiculares às iniciais, batendo sempre os paus.

“Cada terra com seu uso e cada roca com seu fuso”, diz o ditado, também estes passes de dança têm várias formas de interpretação e nós não nos julgamos como os mais entendidos, mas foi assim que aprendemos. Mesmo o nome pode divergir, bom seria analisar “lhaço” por “lhaço” e descrever a coreografia deles com as variantes de terra para terra.

Não é a finalidade deste trabalho, mas estamos disponíveis para o fazer ou ajudar a fazer.

Este trabalho apenas quer ser um registo de memória sobre os pauliteiros, mas que pode ajudar em vários campos.

Há depois várias variantes que cada grupo tem e que diz da sua qualidade e ainda várias formas de bater os paus; o pau picado (bater os seus paus um no outro), por cima ou por baixo, antes de bater nos paus dos outros dançadores, pau simples, paus juntos, paus em cruz, pau de corrida e o pau simples em cima ou em baixo.

Dançar com os pés, ao mesmo tempo que se deslocam nos vários passes, é também um pormenor importante.

Isto tudo exige, como se deduz facilmente, uma maior destreza.

Cada “lhaço” é dançado no geral, quatro vezes e no fim os dançadores, já sem bater os paus, dançam a “bicha”, que é uma dança, em que os dançadores, dançando e tocando as castanholas, vão em duas filas na direcção do público, abrindo cada fila para seu lado, na frente do palco, voltando a fazer uma fila na direcção contrária. Acabam dando um salto, ficando voltados cara com cara as duas filas.

Porque achamos de interesse, vamos ainda dar uma explicação de três “lhaços”.

“Ls Oufícios” – Neste “lhaço”, como o nome indica, são representados quatro ofícios que cada grupo acha mais usuais ou representativos da actividade da sua terra.

Em Sendim, os quatro ofícios que se costumam apresentar são os de ferreiro, carpinteiro, barbeiro e ferrador.

No fim de cada dança, cada par, uma guia e um peão, representam o seu ofício.

Um par faz o ferreiro, o peão põe os paus na horizontal e a guia com os paus juntos simula malhar o ferro, batendo nos paus do peão.

Outro par faz o carpinteiro, o peão põe os paus na horizontal e a guia na vertical e movimentando os paus um para cima e o outro para baixo, simulam serrar.

Outro par faz o barbeiro, o peão põe os paus atrás, na vertical, seguros pelas mãos, e senta-se neles, enquanto a guia simula fazer-lhe a barba, servindo um pau de navalha e o outro de afiador.

O outro par faz de ferrador, o peão faz de “burro”, inclinado para a frente, apoiado sobre os dois paus, levanta uma perna para trás e a guia segura a perna com um pau e com o outro simula ferrar. Aqui o peão pode simular dar um coice, a guia simula tirar o casco, bater na sola. É tudo uma questão de imaginação.

“Las rosas” – Este “lhaço” é apenas dançado, não se utilizando os paus. Ao som da gaita-de-foles e tocando as castanholas, os pauliteiros dançam a “bitcha”. Mas, quem melhor que o nosso conterrâneo, Pe. Mourinho, para descrever esta dança?

<<Esta só se faz em volta de um alqueire de trigo cogulado, sobre o qual espetam uma estaca de que pende abundante fumeiro de carne de porco e se coloca um jarro de vinho.

Os dançantes executam, várias voltas circundando a oferta; no tempo devido, vêm de dois em dois celebrar a festa, dançando e sacudindo os pés, sobre a valiosa esmola, como que em bênção ou exorcismo o que me parece a transformam e definem como uma autêntica dança ritual. Dela já recolhi várias e boas imagens que oportunamente serão publicadas com texto mais desenvolvido.>>

O “salto ao castelo” ou “assalto ao castelo” é uma dança sem paus e em que depois de dançarem a “bitcha” os peões de cada fila se colocam um aos ombros do outro, fazendo dois pilares voltados um para o outro, no meio do palco. Ao mesmo tempo as guias dançando, dois de um lado e dois do outro, preparam o momento do salto.

O gaiteiro dá um sinal com a gaita-de-foles, uma das guias toma balanço para saltar, enquanto as outras se juntam aos pilares feitos pelos peões, ficando uma a fazer de “burro”, no meio, e as outras duas, cada uma de seu lado, encostadas ao burro, esperam pelo saltador.

Este, ajudado pela guia do seu lado, salta pelo meio, dando uma cambalhota e indo cair do outro lado, onde a outra guia o ajuda a ficar em pé.

Formam as filas novamente e dançam a “bitcha” (fig.13).

Fig. 13

Isto é o essencial para se entender a dança e poder apreciá-la melhor.

A coreografia é muito variada e os “lhaços” conhecidos são mais de 50 (cinquenta), mas costumávamos dizer, nos ensaios, os “lhaços” não têm fim, pois pode sempre criar-se mais um.

Veja-se o “lhaço” do Hino Nacional, dançado na inauguração da Casa da Criança Mirandesa e que tanto escandalizou o Padre Dr. António Mourinho, na altura. Mas o que é certo, é que só um grande conhecedor da dança e de todas as suas coreografias conseguia ensaiar um grupo para o dançar. José Pires Mourinho, irmão mais velho do Padre Dr. António Maria Mourinho, conseguiu-o.

Este documento foi o fruto da nossa experiência pessoal, como dançador, como ensaiador e como pesquisador curioso. Aqui vos fica, para não se perder o rudimento da dança dos paus e um pouco da memória de Sendim.

Nota final

Porque pensamos que este será porventura o primeiro documento escrito por alguém que foi dançador, ensaiador e pesquisador da dança dos paus, não o podemos considerar acabado. Ele será um documento em actualização enquanto a vida nos permitir.

Aconselhamos quem quiser ter um conhecimento mais profundo desta dança, a ler o livro “Cancioneiro Tradicional e Danças Populares Mirandesas” do nosso conterrâneo António Maria Mourinho, 1º. Volume, Março de 1984.

(1) – Os nomes das moças, miúdas e miúdos que se vêem na (fig.2)

- Primeira fila a contar de cima – Judite Mourinho (que foi ensaiadora do primeiro rancho infantil de Sendim), Cristina Penino, Ana Xastre, Júlia Jantarada, Conceição Castro e Augusta Balbino.

- Segunda fila – Lurdes Margalho, Rosa Nobre, Maria Ferra, Ana Maria Luís, Maria Xavier, Maria das Dores Carção e Rosa Mourinho.

- Terceira fila – Maria Peres, Adília Falcão, Fábia Machado, Filomena Melgo, Ana Ferreira, Adelaide Ramos e Filomena Picotês.

- Os miúdos, da esquerda para a direita – Domingos Jantarada, Manuel Mourinho e Américo Ferreira.

Sendim, 20 de Janeiro de 2007

José Almendra

Ação concluída.
Antrar

Para screbires ne l sítio, diç-mos quien sós. Ye ua beç — depuis quedas antrado.

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