1933
1933 – Auga i situacion sanitária an Sendin. Febre tifoide.
Amadeu Ferreira · screbido a 18/01/2007
1933 – Auga i situacion sanitária an Sendin. Febre tifoide.
1. Traio hoije al coincimiento un relatório mandado fazer pul Goberno subre l’auga buída an Sendin an 1933, que mos dá tamien ua eideia subre las cundiçones de limpeza de l’aldé i de las pessonas. Anforma-se que an 1932 houbo ua eipidemie de febre tifoide que agarrou 90 pessonas, habendo-se morrido 35. Ye algo que inda stá na mimória de giente cun quien falei, inda que las pessonas nun sában bien çtinguir quando habie eipidemies, yá que, nesse tiempo, ls anjicos éran mais que you sei alhá i habie a beranos an que ls garotos íban a barrer. Miu pai, nessa altura, yá tenie 12 anhos i lembra-se bien, i possiblemente outras pessonas inda se lembraran melhor.
La fuonte de margulho ou de chapuço de que l decumiento fala ye la chamada Fuonte de l Lugar. Claro que yá nessa altura habie la Fuonte Nuoba, mas nessa altura quedaba mui loinje de l pobo i era subretodo ousada pa ls animales buéren.
2. Em Dezembro de 1933 veio à Junta Sanitária de Águas o projecto de abstecimento a Sendim, sôbre o qual o vogal Dr. Manuel de Vasconcelos apresentou o seguinte relatório:
«Está ainda vívida na lembrança a epidemia de febre tifóide que no ano passado grassou em Sedim. Numerosos foram os casos (90 com 35 óbitos), tanto que houve de instalar um hospital em Miranda. Não quis o povo do lugar atribuir às águas o malefício e tanto assim que diziam: “os nossos avós toda la vida la beberam e dela não morreram”.
Compreende-se a dificuldade que a autoridade sanitária teve em evitar que de tal água se servissem.
Sendim tem uma única fonte de mergulho, na parte baixa da povoação. Abasteciam esta fonte dois manciais: um que vinha de baixo dos prédios e quinteiros e outro que vem do lado de uma horta. Mandou o delegado de saúde cortar o primeiro por o julgar suspeito e actualmente apenas se aproveita o segundo que cai na fonte de mergulho, de modo que a água pode colher-se directamente do cano. Eu próprio medi o caudal no dia 6 do corrente, dando 3 litros por minuto, isto é, para a actual população de Sendim, 1:526 habitantes, menos de 3 litros por dia e por habitante.
Faz-se o cálculo às 24 horas, quando o tempo útil de ir à fonte não passa de 12 a 16 horas. Pràticamente, portanto, não há que contar com mais de 2 litros de água suposta potável. No resto do tempo a água continua a cair na poça da fonte, onde vão parar outras escorrências e infiltracções.
A lei do menor esfôrço e o convencimento arraigado de que não é a água a casadora da febre faz com que os moradores encham na poça os cântaros e vasilhas.
O fundo dos cântaros está conspurcadíssimo; em volta da fonte só vi lama e dejectos; toda a povoação é, sem desprimor, muito pouco limpa, pois que não há retretes nas casas e todos vêm fazer as necessidades na via pública. Não ofende o brio desta ilustre terra mirandesa, porque com ela correm parelhas terras de Trás-os-Montes de maior categoria.
Se atentarmos que a febre tifóide é mais ou menos endémica e que devem ser numerosos os porta-germes, é caso para admirar de que maior não seja a morbidade. Vão-se auto-vacinando e é isso que ainda lhes vale.
Dúvida não me resta hoje de que a principal causa de inquinação da água das fontes de mergulho vem da conspurcação das vasilhas que nela immergem.
É mester pôr côbro, a todo o transe, a semelhante prática.
Protejam-se as nascentes, canalizem-se as águas em tubos metálicos bem vedados e ponham-se a correr em bica própria, debaixo da qual se ponha o cântaro a encher. Procure-se sempre esta solução, embora se afaste da povoação um pouco a fonte, banindo o depósito onde se possam mergulhar os cântaros.
Quando as condições topográficas locais o não permitam, protejam-se e vedem-se os mananciais, estabeleça-se uma zona de protecção em volta da fonte de mergulho, com escoamento rápido dos líquidos de superfície; esgote-se a fonte, limpe-se o lôdo e lama existentes, calafetem-se as juntas das pedras com cimento, instale-se em chupador ligado a uma bomba de relógio, lancem-se no fundo uns quilos de cal apagada. Depois tape-se hermèticamente a fonte, deixando, quando muito, um descarregador para o excesso de água, recurvado e com ralo, de modo que por êle não possam passar para dentro da fonte nem águas, nem animais.
Não servem portas de ferro, porque não oferecem confiança; forçam a porta, deixam-na aberta e até, por ignorância ou má fé, podem ali urinar.
Na maioria dos casos, estas obras podem fazer-se em uma semana. Emquanto se espera pela aprovação, dotação e execução do projecto de abastecimento definitivo façam-se estas obras sumárias de protecção das águas.»
in Ministério do Interior, Direcção Geral de Saúde (1935) Notícia dos Inquéritos de higiene rural e sôbre águas e esgotos. Vol. II. Águas e Esgotos. Imprensa Nacional de Lisboa, pp. 77-78.
3. Queda eiqui l decumiento, sien mais comentairos, para que todos l puodan coincer. Assi i todo hai que dezir que las medidas porbisórias perpuostas pul dr. Manuel de Vasconcelos para porteger la auga de la Fuonte de l Lugar i assi melhor la situacion nun fúrun tomadas. Era you garoto i la fuonte alhá cuntinaba na mesma, solo habendo sido tapada quando un rapaç, filho de tiu Tresinho de la Parreira, alhá se afogou ende por 1961 ou 1962 [se fura bibo tenerie agora 52 anhos]. Quanto a la febre tifoide, eilha cuntinou a rundar an Sendin por muitos mais anhos, pus you mesmo stube para lebar camárcio cun eilha an 1954, tenie quatro anhos.
Subre l arranjo de la Fuonte de l Lugar i de adonde ben la sue auga tengo alguns teçtemunhos de pessonas que screbi. Quédan para un die an que se fale mais de la stória de la Fuonte de l Lugar, que agora l oujetibo deste ye outro.
4. Cumo diç l relatório, la situaçon ne ls outros sítios de l cunceilho i na cidade nun era melhor que la de Sendin. Para que se saba, pus tamien desso se faç la stória, la situaçon de la cidade de Miranda de l Douro ye apersentada assi pul delgado de salude, an Júnio de 1929:
«São frequentes nesta cidade os casos de infecções intestinais, especialmente na época de verão. No ano passado atingiram a percentagem de 25%.
Deve ser atribuída à água a principal causa da transmissão destas doenças, dada a forma como é captada e canalizada.
A água que abstece a cidade vem duma nascente situada a 2:500 metros de distância e a sua captação é tudo quanto há de mais anti-higiénico: um poço vulgar a descoberto, onde podem beber animais e aves, encontrando-se, frequentes vezes ali, esqueletos de animais. A sua canalização é de sistema primitivo: um caleiro de pedra e cal a descoberto na maior parte da sua extensão e nalguns pontos segue o leito de um caminho público, onde os excrementos dos animais podem penetrar na canalização.
Torna-se, pois, necessário e urgente remediar êste mal, antes que a epidemia tome maiores proporções e se propague às aldeias do concelho.
Estão orçados os trabalhos da canalização das águas em 100.000$. Não se interessando a comissão administrativa do concelho pelo assunto, venho propor a V. Ex.ª providências urgentes.»
ob. cit. p. 77.
17 de Janeiro de 2007
Amadeu Ferreira
Abiso:
Este testo, cunsante las regras de la Cumbençon Ourtográfica de la Lhéngua Mirandesa i de la sue Purmeira Adenda, stá solo screbido cun L- an percípio de palabra, a la moda de l mirandés de Sendin.