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Babel i Sion - Luís de Camões

amadeu · 17 de março de 2007

Babel i Sion

Sôbolos rios que vão

Por Babilónia, me achei,

Onde sentado chorei

As lembranças de Sião

E quanto nela passei.

Ali, o rio corrente

De meus olhos foi manado;

E, tudo bem comparado,

Babilónia ao mal presente,

Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes

Na alma se representaram;

E minhas cousas ausentes

Se fizeram tão presentes

Como se nunca passaram.

Ali, depois de acordado,

Co rosto banhado em água,

deste sonho imaginado,

Vi que todo o bem passado

Não é gosto, mas é mágoa.

E vi que todos os danos

Se causavam das mudanças

E as mudanças dos anos;

Onde vi quantos enganos

Faz o tempo às esperanças.

Ali vi o maior bem

Quão pouco espaço que dura;

O mal que depressa vem,

E quão triste estado tem

Quem se fia na ventura.

Vi aquilo que mais vale,

Que então se entende melhor,

Quanto mais perdido for;

Vi o bem suceder mal

E, ao mal, muito pior.

E vi com muito trabalho

Comprar arrependimento.

Vi nenhum contentamento,

E vejo-me a mim, que espalho

Tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas águas

Com que banho este papel;

Bem parece ser cruel

Variedade de mágoas

E confusão de Babel.

Como homem que, por exemplo,

Dos transes em que se achou,

Depois que a guerra deixou,

Pelas paredes do templo

Suas armas pendurou;

Assim, depois que assentei

Que tudo o tempo gastava,

Da tristeza que tomei,

Nos salgueiros pendurei

Os órgãos com que cantava.

Aquele instrumento ledo

Deixei da vida passada,

Dizendo: - Música amada,

Deixo-vos neste arvoredo,

À memória consagrada.

Frauta minha que, tangendo,

Os montes fazíeis vir

Pra onde estáveis correndo,

E as águas, que iam descendo,

Tornavam logo a subir,

Jamais vos não ouvirão

Os tigres, que se amansavam;

E as ovelhas que pastavam,

Das ervas se fartarão

Que por vos ouvir deixavam.

Já não fareis docemente

Em rosas tornar abrolhos

Na ribeira florescente;

Nem poreis freio à corrente,

E mais se for dos meus olhos.

Não movereis a espessura,

Nem podereis já trazer

Atrás vós a fonte pura,

Pois não pudestes mover

Desconcertos da ventura.

Ficareis oferecida

À Fama, que sempre vela,

Frauta de mim tão querida;

Porque, mudando-se a vida,

Se mudam os gostos dela.

Acha a terna mocidade

Prazeres acomodados,

E logo a maior idade

Já sente por pouquidade

Aqueles gostos passados.

Um gosto que hoje se alcança,

Amanhã já o não vejo:

Assim nos traz a mudança

Da esperança em esperança

E de desejo em desejo.

Mas em vida tão escassa

Que esperança será forte?

Fraqueza de humana sorte,

Que quanto da vida passa

Está recitando a morte!

Mas deixar nesta espessura

O canto da mocidade!

Não cuide a gente futura

Que será obra da idade

O que é força da ventura.

Que idade, tempo, o espanto

De ver quão ligeiro passe,

Nunca em mim puderam tanto

Que, posto que deixe o canto,

A causa dele deixasse.

Mas em tristezas e nojos,

Em gosto e contentamento,

Por sol, por neve, por vento,

Tendré presente á los ojos

Por quien muero tan cuntento.

Órgãos e frauta deixava,

Despojo meu tão querido,

No salgueiro que ali estava,

Que pera troféu ficava

De quem me tinha vencido.

Mas lembraçaas da afeição

Que ali cativo me tinha,

Me perguntaram então:

Que era da música minha

Que eu cantava em Sião?

Que foi daquele cantar

Das gentes tão celebrado?

Porque o deixava de usar?

Pois sempre ajuda a passar

Qualquer trabalho passado.

Canta o caminhante ledo

No caminho trabalhoso,

Por entre o espesso arvoredo;

E de noite o temeroso,

Cantando, refreia o medo.

Canta o preso docemente,

Os duros grilhões tocando;

Canta o segador contente,

E o trabalhador, cantando,

O trabalho menos sente.

Eu, que estas cousas senti

Na alma, de mágoas tão cheia,

Como dirá, respondi,

Quem alheio está de si

Doce canto em terra alheia?

Como poderá cantar

Quem em choro banha o peito?

Porque, se quem trabalhar

Canta por menos cansar,

Eu só descansos enjeito.

Que não parece razão

Nem parece cousa idónea

Por abrandar a paixão,

Que cantasse em Babilónia

As cantigas de Sião.

Que, quando a muita graveza,

De saudade quebrante

Esta vital fortaleza,

Antes moura de tristeza

Que, por abrandá-la, cante.

Que, se o fino pensamento

Só na tristeza consiste,

Não tenho medo ao tormento:

Que morrer de puro triste,

Que maior contentamento?

Nem na frauta cantarei

O que passo e passei já,

Nem menos o escreverei;

Porque a pena cansará

E eu não descansarei.

Que, se vida tão pequena

Se acrescenta e terra estranha,

E se Amor assim o ordena,

Razão é que canse a pena

De escrever pena tamanha.

Porém se, pera assentar

O que sente o coração,

A pena já me cansar,

Não canse pera voar

A memória em Sião.

Terra bem-aventurada,

Se, por algum movimento,

Da alma me fores mudada,

Minha pena seja dada

A perpétuo esquecimento.

A pena deste desterro,

Que eu mais desejo esculpida

Em pedra ou em duro ferro,

Essa nunca seja ouvida,

Em castigo de meu erro.

E se eu cantar quiser,

Em Babilónia sujeito,

Hierusalém, sem te ver,

A voz, quando a mover,

Se me congele no peito.

A minha língua se apegue

Às fauces, pois te perdi,

Se, enquanto viver assi,

Houver tempo em que te negue

Ou que me esqueça de ti!

Mas, ó tu, terra de Glória,

Se eu nunca vi tua assência,

Como me lembras na ausência?

Não me lembras na memória,

Senão na reminiscência.

Que a alma é tábua rasa

Que com a escrita doutrina

Celeste tanto imagina,

Que voa da própria casa

E sobe à pátria divina.

Não é logo a saudade

Das terras onde nasceu

A carne, mas é do Céu,

Daquela santa Cidade

De onde esta alma descendeu.

E aquela humana figura,

Que cá me pode alterar,

Não é quem se há-de buscar:

É raio da Fermosura

Que só se deve de amar.

Que os olhos e a luz que ateia

O fogo que cá sujeita,

- Não do sol, mas da candeia –

É sombra daquela ideia

Que em deus está mais perfeita.

E os que cá me cativaram

São poderosos afeitos

Que os corações têm sujeitos;

Sofistas que me ensinaram

Maus caminhos por direitos.

Destes o mando tirano

Me obriga, com desatino,

A cantar, ao som do dano,

Cantares de amor profano

Por versos de amor divino.

Mas eu, lustrado co’o santo

Raio, na terra de dor,

De confusão e de espanto,

Como hei-de cantar o canto

Que só se deve ao Senhor?

Tanto pode o benefício

Da Graça, que dá saúde,

Que ordena que a vida mude:

E o que tomei por vício

Me faz grau pera a virtude.

E faz que este natural

Amor, que tanto se preza,

Suba da sombra ao real,

Da particular beleza

Pera a Beleza geral.

Fique logo pendurada

A frauta com que tangi,

Ó Hierusalém sagrada,

E tome a lira dourada

Pera só cantar de ti;

Não cativo e ferrolhado

Na Babilónia infernal,

Mas dos vícios desatado

E cá desta a ti levado,

Pátria minha natural.

E se eu mais der a cerviz

A mundanos acidentes,

Duros, tiranos e urgentes,

Risque-se quanto já fiz

Do grão livro dos viventes.

E, tomando já na mão

A lira santa e capaz

Doutra mais alta invenção,

Cale-se esta confusão,

Cante-se a visão da paz!

Ouça-me o pastor e o rei,

Retumbe este acento santo,

Mova-se no mudo espanto;

Que do que já mal cantei

A palinódia já canto.

A vós só me quero ir,

Senhor e grão Capitão

Da alta torre de Sião,

À qual não posso subir,

Se me vós não dais a mão.

No grão dia singular

Que na lira o douto som

Hierusalém celebrar,

Lembrai-vos de castigar

Os ruins filhos de Edom.

Aqueles que tintos vão

No pobre sangue inocente,

Soberbos co’o poder vão,

Arrasai-os igualmente,

Conheçam que humanos são.

E aquele poder tão duro

Dos afeitos com que venho,

Que encendem alma e engenho;

Que já me entraram o muro

Do livre alvídrio que tenho;

Estes, que tão furiosos

Gritando vêm a escalar-me,

Maus espíritos danosos,

Que querem como forçosos

Do alicerce derrubar-me;

Derrubai-os, fiquem sós,

De forças fracos, imbeles;

Porque não podemos nós

Nem com eles ir a Vós,

Nem sem Vós tirar-nos deles.

Não basta minha fraqueza

Pera me dar defensão,

Se Vós, santo Capitão,

Nesta minha fortaleza

Não puserdes guarnição.

E tu, ó carne que encantas,

Filha de Babel tão feia,

Toda de misérias cheia,

Que mil vezes te levantas

Contra quem te senhoreia,

Beato só pode ser

Quem com a ajuda celeste

Contra ti prevalecer,

E te vier a fazer

O mal que lhe tu fizeste;

Quem com disciplina crua

se fere mais que uma vez,

Cuja alma, de vícios nua,

Faz nódoas na carne sua,

Que já a carne na alma fez.

E beato quem tomar

seus pensamentos recentes

E em nascendo os afogar,

Por não virem a parar

Em vícios graves e urgentes;

Quem com eles logo der

Na pedra do furor santo

E, batendo, os desfizer

Na Pedra, que veio a ser

Enfim cabeça de Canto;

Quem logo, quando imagina

Nos vícios da carne má,

Os pensamentos declina

Àquela carne divina

Que na Cruz esteve já;

Quem do vil contentamento

Cá deste mundo visível,

Quanto ao homem for possível,

Passar logo o entendimento

Pera o mundo inteligível;

Ali achará alegria

Em tudo perfeita e cheia

De tão suave harmonia,

Que nem, por pouca, escasseia

Nem, por sobeja, enfastia.

Ali verá tão profundo

Mistério na suma Alteza,

Que, vencida a Natureza,

Os mores faustos do Mundo

Julgue por maior baixeza.

Ó tu, divino aposento,

Minha pátria singular,

Se só com te imaginar

Tanto sobe o entendimento,

Que fará, se em ti se achar?

Ditoso quem se partir

Pera ti, terra excelente,

Tão justo e tão penitente,

Que, depois de a ti subir,

Lá descanse eternamente!

Luís de Camões

Babel i Sion

A mirar ls rius que ban

Por Babilónia, me achei,

Donde sentado chorei

Lhembráncias que an Sion stan

I quanto neilha passei.

Eilhi, aquel riu corriente

De mius uolhos fui manado;

I, bien todo acumparado,

Babilónia al mal persente,

Sion al tiempo atrasado.

Eilhi, lhembráncias amadas

N’alma se m’apersentórun;

I las mies cousas fastadas

Se fazírun tan çclaradas,

Parece que nun passórun.

Eilhi, apuis de spertado,

Cul rostro alhagado an auga,

Deste suonho manginado,

Bi que todo l bien passado

Nun ye gusto, mas ye mauga.

I bi que todos ls danhos

Me salien de las mudanças

I las mudanças de ls anhos;

Ende bi quantos anganhos

L tiempo fai a las spranças.

Eilhi bi l que mais cumben

Tan pouco tiempo que dura;

L mal que debrebe ben,

I triste figura ten

Quien se finta na bintura.

Bi aqueilho que mais bal,

Anton melhor antendido,

Quanto mais stubir perdido;

Bi al bien achar-se mal

I, al mal, pior star metido.

I bi cun muito trabalho

Mercar arrependimiento.

Bi niun cuntentamiento,

I beio-me a mi, que spalho

Tristes palabras al biento.

Son cumo rius estas augas

Cun que demolho esta fuolha;

Bien parece mala scuolha

Bariadade de maugas

I an Babel cunfusion cuolha.

Cumo home que, para eisemplo,

De ls males an que s’achou,

Mal la guerra s’acabou,

Pulas paredes de l templo

Sues armas alhá colgou;

Assi, apuis que assentei

Que todo l tiempo açagaba,

Cula pena que agarrei,

De ls salgueiros çpindurei

Ls uorganos que tocaba.

L alegre strumiento cedo

Deixei d’la bida atrasada,

Dezindo: - Música amada,

Deixo-bos neste alboredo,

A lhembráncias cunsagrada.

Á fraita mie que, tocando,

Ls montes fazies benir

Pra donde stabas andando,

I las augas, abeixando,

Tornában-se lhougo a oupir,

Nunca mais bos oubiran

Ls triges, que se amansában;

Las canhonas que pastában,

De yerbas se cansaran

Que pa bos oubir deixában.

Nun fazereis docemiente

An rosas bolber ls picos

Ne l rigueiro relhuziente;

Nin parareis la corriente,

Sendo a mais de mius oulhicos.

Nun bulhireis la spessura,

Nin podereis yá traer

Atrás bós la fuonte pura,

Pus nun pudistes mexer

Çcuncertos de la bintura.

Quedareis ouferecida

A la Fama, guapa streilha,

Fraita de mi tan querida;

Pus, demudando la bida,

Demúdan-se ls gustos deilha.

Siempre acha la mocidade

Gustos mui bien purparados,

I cul andar de l’eidade

Yá lhembra cun sauidade

Aqueilhes gustos passados.

Um gusto que hoije s’alcança,

Manhana yá nun lo beio:

Assi mos trai la mudança

Dua sprança an outra sprança

I de deseio an deseio.

Mas nua bida tan scassa

Que sprança será bien fuorte?

Fraqueza de houmana suorte,

Que quanto la bida passa

Stá dezindo la sue muorte!

Mas deixar nesta spessura

Las modas de mocidade!

Nun cuide giente fetura

Que ye obra de l’eidade

L que ben cula bintura.

Que eidade, tiempo, que spanto

Por ber tan delgeiro passe,

Nunca an mi podírun tanto

Que, inda que you deixe l canto,

La rezon del la deixasse.

Mas an tristezas i noijos,

An gusto i cuntentamiento,

Por sol, por niebe, por biento,

Tendré presente á los ojos

Por quien muero tan cuntento.

Fraita i uorganos deixaba,

Á çpoijo miu tan querido,

Ne l salgueiro que eilhi staba,

Que para prémio quedaba

De quien yá me habie bencido.

Mas lhembráncias d’afeiçon

Que eilhi preso me tenie,

Me preguntórun anton:

Que era de la música mie

Que you cantaba an Sion?

L que fiç daquel cantar

Pulas gientes agabado?

Porquei l deixaba d’ousar?

Pus siempre ajuda a passar

Todo l trabalho passado.

Canta un se bai caminando

Por camino trabalhoso,

An spesso alboredo andando;

I pula nuite l medroso,

Sou miedo atama cantando.

Canta l preso sou termento

Las cadenas telincando;

Canta l segador cuntento,

I até l oubreiro, cantando,

Ne l trabalho mal pon tento.

You, que estas cousas senti

N’alma, de maugas tan chena,

Cumo cantar, respundi,

Quien alheno stá de si

Doce moda an tierra alhena?

Cumo poderá cantar

Quien an choro alhaga l peito?

Porque, se quien trabalhar

Canta pa menos cansar,

You a çcansos nun dou jeito.

Que nun parece rezon

Nin parece que atamara

Tal cousa la mie paixon,

Que an Babilónia cantara

Las mies modas de Sion.

Que, se la muita dureza,

De sauidade me spante

De bibir la fortaleza,

Antes muorra de tristeza

Que, pa l’adundiar, cante.

Que, se l fino pensamiento

Solo na tristeza eisiste,

Nun tengo miedo al termiento:

Que morrer solo de triste,

Que maior cuntentamiento?

Nin na fraita cantarei

L que passo i passei yá,

Menos inda l screbirei;

La pruma se cansará

I you nunca çcansarei.

Que, se tan pequeinha bida

Se acrecenta an tierra stranha,

I se Amor dá essa lhida,

Queda la pruma perdida

de screbir pena tamanha.

Mas se, para assossegar

L que sinte l coraçon,

La pruma yá me cansar,

Nun se canse pa bolar

La lhembráncia de Sion.

Tierra bien-abinturada,

Se, por algum mobimiento,

D’alma fures demudada,

Mie pena seia botada

Al eiterno squecimiento.

La pena deste miu çterro,

Que you mais quiero grabada

An piedra ou an fierro duro,

Essa nun seia scuitada,

De erro miu castigo puro.

I se you cantar quejir,

An Babilónia sujeito,

Jarusalen, i nun te bir,

La boç, quando la mexir,

S’ancarambine ne l peito.

La mie lhéngua se m’apegue

Na gorja, pus te perdi,

Se, anquanto bibir assi,

Tiempo houbir que t’arrenegue

Ó que me squeça de ti!

Mas, á tu, tierra de Glória,

Se nunca bi tue eisséncia,

Cumo me lhembras n’ouséncia?

Nun me lhembras na mimória,

Solo na remenicéncia.

Que l’alma ye traba rasa

Que cula scrita doutrina

Celhestre tanto mangina,

Que bolando de sue casa

Chube a la pátria debina.

Nun ye lhougo la suidade

De l lhugar donde benie

L cuorpo, de l Cielo ye,

Daqueilha santa Cidade

Donde esta alma pertencie.

I aqueilha houmana figura,

Que acá me puode altarar,

Nun ye quien se há-de buscar:

Ye raio de Fermosura

Que só se debe d’amar.

Uolhos i lhuç que ancendeia

L fuogo que acá sujeita,

- Nó de l sol, de la candeia –

Selombra daqueilha eideia

Que stá an Dius mais purfeita.

I los que acá me ancerrórun

Ténen, de ls fuortes eifeitos,

To ls coraçones sujeitos;

Sofistas que me ansinórun

Malos caminos por dreitos.

Destes l mando tirano

Me oubriga, cun tal zatino,

A cantar, al son de l danho,

Modas dun amor profano

Por bersos de amor debino.

Mas you, a lhuzir cul santo

Raio, an tierra de delor,

De cunfusion i de spanto,

Cumo hei-de cantar l canto

Que só se debe al Senhor?

Tanto puode l benefício

D’la Grácia, que dá salude,

Que manda la bida mude:

I l que you tomei por bício

Ye scaleira de bertude.

Fai chubir l natural

Amor, que tanto se prézia,

De la selombra al rial,

D’la particular beleza

Pa la Beleza giral.

Quede lhougo çpindurada

La fraita cun que serbi,

Á Jarusalen sagrada,

I cula lira dourada

Yá solo cantar de ti;

Nó preso i aferrolhado

Na Babilónia anfernal,

Mas yá de ls bícios zatado

I acá desta a ti lhebado,

La mie pátria natural.

I se l cachaço afazir

A anfelizes acidentes,

Duros, tiranos i ourgentes,

Zarrisque-se l que fazir

De l lhibro onde stan ls bibentes.

I, na mano bien al son

La lira santa i capaç

Doutra mais alta ambençon,

Calhe-se esta cunfuson,

Cante-se l tiempo de paç!

Ouba-me l pastor i l rei,

Ressone este cantar santo,

Mexa-se ne l mudo spanto;

Que de l que yá mal cantei

La mesma moda yá canto.

Solo a bós me quiero ir,

L Senhor que manda mais

An Sion, torre onde stais

I a que nun puodo chubir,

Se la mano nun me dais.

Ne l grande die singular

Que an lira l sabido son

Jarusalen festear,

Lhembrai-bos de castigar

Ls malos filhos de Eidon.

Ls que bien tenhidos ban

Cul probe sangue einocente,

Sobérbios cul poder stan,

Derrotai-los eigualmente,

Sában bien que a houmanos dan.

I aquel poder tan duro

De las ganas cun que bengo,

Lhuç de l’alma a que m’atengo;

Que m’arrepassórun l muro

D’la lhibardade que tengo;

Estes, que tan rabiosos

Bózian a ancarrapitar-me,

Son malos spritos danhosos,

Que quieren cumo pod’rosos

L aliçace sbarrulhar-me;

Caí-los, quéden uns Jós,

De fuorças fracos, grimados;

Porque nun podemos nós

Nin cun eilhes ir a Bós,

Nin sin Bós deilhes sacados.

Nun bonda la mie fraqueza

Para me dar salbaçon,

Se Bós, Capitan, al son

Andrento mie fortaleza

Nun ponirdes guarniçon.

I tu, á carne que ancantas,

Filha de Babel tan feia,

Que de misérias s’arreia,

Que mil bezes t’alhebantas

Contra quien te senhoreia,

Feliç solo puode ser

Quien cun upa l cielo assiste

Pa subertir l tou ser,

I te benir a fazer

L mal que tu le faziste;

Quien cun peniténcia dura

se fire a el sin juízo,

I l’alma, de bícios pura,

Del cuorpo faç maçadura,

Que l cuorpo yá n’alma fizo.

I feliç quien agarrar

sous pensamientos bien rentes

I al nacer los afogar,

Pa que nun béngan a dar

An bícios malos i ourgentes;

Quien cun eilhes lhougo dir

Na piedra de l ferbor santo

I, batendo, los çfazir

Na Piedra, que ha de benir

A ser cabeça de Canto;

Quien lhougo, quando mangina

Ne ls bícios de l cuorpo rui,

Sous pensamentos anclina

Pa aqueilha carne debina

Que na Cruç crabada fui;

Quien de l ruin cuntentamiento

Acá de l mundo bisible,

Quanto al home fur possible,

Passar sou antendimiento

Pa l outro mundo antendible;

Ende alegrie que perdiu

Achará purfeita i chena

De harmonie que nun se biu,

Que nien, por pouca, dá pena

Nien, por sobrar, dá fastiu.

Eilhi berá tan perfundo

Mistério na grande Alteza,

Que, ganha la Natureza,

To las riquezas de l Mundo

Tenga por grande probeza.

Ah tu, debino aposento,

La pátria de l miu sonhar,

Se solo l te manginar

Lhebanta l antendimento,

Que fará, se an ti morar?

Feliç de quien se fugir

Para ti, tierra eicelente,

Tan justo i tan penitente,

Que, adepuis de a ti benir,

Alhá çcanse eiternamente!

Traduçon de Fracisco Niebro

2005-2007

Eiqui queda, an pertués i an mirandés, un de ls mais stourdinairos poemas de Luís de Camões i de la lhéngua pertuesa. Poema que canta, chorando, la bida de l çterrado, loinge de sue tierra, adonde siempre stá la sue alma i l sou pensar.

Tardei mais de dous anhos a traduzi-lo, que nunca m'agradaba l modo cumo quedaba i a las bezes nun era capaç de achar seluçones a l'altura de l poema de Camões. Eiqui queda, dun modo que me parece que nun ambergonha. Solo al modo que l fui sentindo, bibindo, las seluçones me fúrun salindo.

Dedico esta traduçon a todos ls stan loinge de la sue tierra, quando gustarien de star alhá, a todos ls que acában por ser çterrados deilhes mesmos, por muito que gústen de l sítio adonde bíben. Spero que gústen de l poema i que la traduçon le traia algun alíbio.

Lisboua, 17 de Márcio de 2007

Fracisco Niebro

Ação concluída.
Antrar

Para screbires ne l sítio, diç-mos quien sós. Ye ua beç — depuis quedas antrado.

ó